Antes de completar oito anos de idade, o menino Paulinho já ajudava o pai na roça. Aos dez, colocava nas costas um balaio carregado de milho, mamão, palmito, tomate, limão entre outras frutas e hortaliças e caminhava oito quilômetros, acompanhado de seus irmãos, de Itapema a Balneário Camboriú. Atravessava o rio numa pequena embarcação. E quando os primeiros raios de sol refletiam no mar da praia central, Paulinho começava a oferecer os frutos de porta em porta. No dia seguinte, o pequeno vendedor ambulante rumava para Porto Belo e Bombinhas. Essa era a rotina da família pobre do bairro Ilhota (hoje Mata Camboriú), onde Paulinho e os dez irmãos nasceram.

Ele e seus irmãos descobriram muito cedo que a vida não seria fácil. Da roça e do mar, o pai, Gaudino João Batista, tirava praticamente todo o sustento da família. "Meu pai não era pescador profissional, o peixe que ele pescava era só para nossa alimentação", conta Paulinho que muitas vezes acompanhava o pai nas pescarias. A vida difícil da infância e adolescência passa como um filme sem cores nas lembranças do hoje bem sucessido empresário do ramo da gastronomia Paulo Gaudino Batista, 59 anos.

A necessidade de trabalhar muito cedo e a falta de escolas na época, afastaram Paulo dos estudos. Ele cursou somente até quarta série do primário. O suficiente para aprender as letras do alfabeto e a escrever o seu nome. Porém insuficiente para ler. Os cálculos matemáticos ele aprendeu a fazer de cabeça. Com pouco estudo, só restou um caminho para o jovem Paulo depois de abandonar a roça: a construção civil. Trabalhou como servente de pedreiro na construção do Hotel Plaza Itapema, e por lá ficou depois da inaugaração do megaempreendimento, em 23 de dezembro de 1972, na função de mensageiro. Anos mais tarde foi promovido a garçon. "A maioria dos donos de restaurantes da região trabalhou no Plaza", conta Paulo que lembra que o luxuoso hotel à beira-mar era tão importante na época para os moradores da região como hoje é a universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI).

Do Plaza, Paulo foi trabalhar num restaurante em Itapema. Foram mais treze anos até que a sua vida, a da esposa Rosene Bastos Batista e das duas filhas começaram a mudaram. Paulo juntou algum dinheiro e comprou, em 1995, 50% de um restaurante na Avenida Atlântica, na Barra Sul, em Balneário Camboriú. Seu sócio era o cozinheiro. "Ele também ensinou a minha esposa a cozinhar".

Paulo ganhou um bom dinheiro e investiu na compra de um terreno próximo, onde iniciou a construção de seu primeiro restaurante, o Casa da Lagosta, hoje referência gastronômica em Balneário Camboriú e região. De 2003 para cá, a família Batista não parou mais de investir. Hoje são 7 restaurantes: três em Balneário Camboriú, dois em Itapema e dois em Bombinhas, que juntos servem em média mais de 2.500 refeições na temporada de verão. O segredo do sucesso? Paulo diz que é baseado em quatro fatores: compras, qualidade da comida, higiene e bom atendimento. De fato quem vai a um dos restaurantes da família Batista, sabe que vai encontrar esses quatro ingredientes, e ainda pode se deparar com o próprio Paulinho que tem sempre uma história boa para contar.

"A vida vale o que você vive e quem não divide não tem sobra". A frase, que Paulo gosta de repetir aos amigos, resume a maneira simples como ele faz seus negócios. Em cada restaurante tem um sócio: em dois deles, a sociedade foi firmada com os irmãos, Jair e Rogério Batista. Em outro é o genro Jean Paulo Ramos. Já nas demais casas, a sociedade é com ex-colegas de trabalho. Os amigos Djon Maike Ramos, Valdeci Santana, Braz Ramos e Mauro da Silva. Os irmãos Jair e Rogério Batista, talvez não tivessem conseguido montar um restaurante se não fosse a ajuda de Paulo, mas nada do que ele fez foi pensando em retorno. "Fiz isso porque gosto de ajudar a família e os amigos", resume o empresário.

O curioso nessa história é que Paulo se tornou um empresário bem sucedido no ramo da gastronomia, mas nunca rompeu com o passado. Continua a mesma pessoa simples de quando trabalhava de garçon, não usa aparelho celular, há pouco tempo instalou um telefone fixo em casa para que as filhas e netos pudessem acessar a internet, e orgulha-se em dizer que jamais preencheu um cheque na vida. O seu maior luxo nestes 60 anos de vida foi uma viagem recente à Veneza, na Itália, numa espécie de segunda lua de mel com a esposa para comemorar 33 anos de casamento. "Quero viver um pouco mais a vida", admite Paulo cujo trabalho hoje é administrar os restaurantes.